Sempre fui favorável à adoção de cotas sociais para ingresso nas universidades públicas, tendo em conta a dificuldade de alunos de baixa renda, quase sempre vindo de escolas públicas, terem o mesmo acesso à universidade que os de maior renda, que podem fazer cursinhos preparatórios e estudar nas melhores escolas privadas. Mas a adoção de cotas raciais não me convencia, pois eu via nestas apenas uma estratégia de adotar as cotas sociais, por um caminho que acabaria prejudicando os “brancos pobres”.

Continuo favorável às cotas sociais, praticamente pelos mesmos motivos. E reforço minha posição com base no desempenho dos alunos cotistas, que na Unicamp e em outras universidades do mundo que adotam cotas, não é diferente do desempenho dos não cotistas. Assim, o argumento contra as cotas, de que essas políticas reduzem a qualidade dos alunos, vem sendo facilmente derrubado.

Porém, minha posição em relação a cotas raciais mudou.

Toda a população paga impostos que, pelo menos em teoria, devem ser usados pelos governos para o benefício da sociedade, na forma de saúde, moradia, segurança, educação, etc. Acredito que todos concordam que esses benefícios devem ser acessíveis a toda a população, e até com prioridade à população mais necessitada, que não consegue ter uma vida digna com recursos próprios.

Quando pensamos em educação básica não é diferente. Ninguém pensa que os acessos ao ensino público fundamental e ao ensino médio devam ser limitados a algum grupo específico. O ensino fundamental é um direito de todos, e o médio também (de todos que tenham concluído o fundamental). Com essa lógica, não há razão para dizer que o ensino superior tenha que ser direito apenas de alguns. Ele deve ser um direito de todos os que concluem o ensino médio. Sim, eu entendo que todos os jovens que concluem o ensino médio devem ter o direito de estudar na universidade. Mas embora nos últimos anos o acesso à universidade tenha sido bastante ampliado, ele ainda está longe de ser universal.

Diante disso, o problema colocado é: como tornar o acesso à universidade pública o mais justo possível para toda a sociedade, levando em conta o fato de que não há vaga para todos?

A resposta que a universidade tradicionalmente deu a isso é o vestibular, uma prova realizada uma vez por ano, nas cidades determinadas por cada universidade, para a qual o mercado já se encarregou de criar cursos, e até escolas, que preparam alunos especialmente para responder às questões e escrever redações do jeito que cada universidade deseja. E os alunos que podem, pagam muito bem por essa preparação. Como resultado, milhões de alunos que não têm condições de pagar por esse treinamento, ou não tem condições de ir até a cidade onde a prova é realizada, ficam para trás. Alunos que ficam nervosos ou doentes no dia da prova também não são perdoados. E assim, o vestibular se encarrega de selecionar os ditos “melhores”, que terão a chance de usufruir de um serviço público, pago por toda a sociedade, incluindo os que jamais entrarão em um campus universitário. Definitivamente, eu não acho isso justo. Talvez o vestibular seja eficiente para filtrar os alunos excepcionais, que são uma pequena porcentagem dos ingressantes. Estes, certamente, continuarão sendo aprovados mesmo em um sistema com cotas.

Indo além, devemos encarar o fato de que, em nossa sociedade, o incentivo ao estudo não é igual em todas as famílias. É comum pais fazerem os filhos trabalharem em vez de estudarem, para ajudar no sustento da família. E em uma sociedade onde o racismo velado está presente, é normal o jovem negro ser incentivado a jogar futebol, dançar, mas não a estudar para se tornar um cientista. O físico (negro) Neil de Grasse Tyson relata com detalhes o desalento ao qual crianças e jovens negros são expostos nos Estados Unidos quando pensam em serem cientistas. No Brasil não é diferente. O problema tem raízes históricas fortes e conhecidas, e acho que a sociedade tem o dever de tentar repará-lo.

Chegando ao ponto, se é impossível para as universidades públicas admitirem a entrada de todos os candidatos, a solução menos injusta em minha opinião, e que é levada em conta por grupos de trabalho no assunto, é fazer com que o conjunto de alunos dentro da universidade seja uma amostra representativa do que é a nossa sociedade, em termos sociais e étnicos. Traduzindo isso em números para o estado de São Paulo, que tem 37% de negros, as universidades estaduais paulistas deveriam admitir, a cada ano, um conjunto de alunos com esse mesmo perfil étnico-racial.

Como já mencionei, não há dados que mostrem que esse tipo de ação piore a qualidade dos alunos. Aliás, dizer isso seria admitir que a própria universidade e, portanto, nós, professores de ensino superior, não temos papel nenhum na formação de bons profissionais. Afinal, o vestibular já teria se encarregado de escolher aqueles que depois de 5 ou 6 anos serão os profissionais que a sociedade precisa. Podemos, assim, assumir nossa inutilidade e arrumar outro trabalho.

É curioso notar, também, que muitas empresas realizam processos seletivos para contratação de profissionais com curso superior, mas sem avaliar os conhecimentos específicos dos candidatos na carreira em que se formaram. Por outro lado, os candidatos são submetidos a provas de conhecimentos gerais, testes psicotécnicos, dinâmicas de grupo e resolução de casos em que outras habilidades são avaliadas. Outras universidades, especialmente nos Estados Unidos, selecionam alunos usando critérios diversos, desde a popularidade até a habilidade em jogar basquete. Então por que nós temos que nos prender apenas ao vestibular?

A admissão na universidade de um conjunto de alunos que, de fato, é representativo da sociedade em que vivemos, afirma o caráter original de uma universidade, que deve ser acessível, inclusiva e diversa. A convivência, no ambiente universitário, de pessoas de origens sociais e étnicas diferentes, é saudável para todos, beneficiando assim não só os alunos que ingressam através de cotas, mas também os demais que, pelo contato, terão a chance de conhecer melhor a realidade do país em que vivem. Eu cursei Engenharia de Alimentos na Unicamp em uma época em que não havia nenhum tipo de ação nesse sentido. Minha turma não tinha nenhum negro, índio, e embora tenha conhecido pessoas fantásticas, acho que em geral éramos muito parecidos. Hoje olho para trás e não acho isso bom.

Finalmente, observamos dentro da própria universidade a existência do racismo. Basta olhar quem são nossos colegas professores, alunos e funcionários para notar a diferença. Não é por acaso que os negros estão, quase sempre, ocupando cargos de baixa formação técnica e menor remuneração. Como disse um colega, isso dentro de uma universidade pública é constrangedor. Devemos ter como meta, em um prazo maior, fazer com que o perfil étnico dos profissionais de cada área com formação superior também represente o conjunto de nossa sociedade. E só conseguiremos isso se dermos, desde já, a oportunidade de ingresso aos que não a têm pelos métodos atuais.

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