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Autonomia

“A infância tem valor, não tanto como período de adestramento, mas como período em que se pode experimentar livremente aquela maravilhosa sensação de sermos nós próprios, que predispõe a aceitar melhor as inevitáveis limitações da vida adulta.”

(Biasutti)

Publiquei dois dicionários: um deles, sobre absurdos da educação; outro, sobre utopias. Como sói dizer-se, não há dois sem três: farei um dicionário de valores. E, se todos os dicionários obedecem à ordem alfabética, comecemos pela letra A… de autonomia.

Há quase quarenta anos, partimos para a reinvenção da Escola da Ponte. Não partimos de problemas, mas daquilo que nós éramos para aquilo que queríamos ser, porque nós éramos o problema… Bem cedo compreendemos que, se reelaborássemos a nossa cultura pessoal e profissional, também estaria em nós a solução, porque um professor não ensina aquilo que diz; o professor transmite aquilo que é.

Nos primórdios do projeto, realizamos um exercício simples: escrevemos num papel os dez valores que orientavam as nossas vidas. Três valores surgiam em todos os papéis: liberdade, solidariedade, responsabilidade. Porém, quando quisemos operacionalizar o valor “liberdade”, deparamo-nos com um obstáculo: não existe uma ciência da liberdade. Ela poderia ser ensinada, mas esse ensino não passaria por uma didática específica, mas por uma gramática que explicasse as transformações. O conceito que encontramos desenvolvido em termos ditos teóricos foi o de autonomia, conceito de vasto espectro semântico e com muitos apêndices: autoestima, autoconfiança, autocontrole, autodisciplina…

Autonomia não é um conceito isolado, nem se define em referência ao seu oposto – define-se na contraditória complementaridade com a dependência, no quadro de uma relação social aberta. O conceito de singularidade é-lhe próximo, mas situa-se aquém da autonomia, porque o reconhecimento da singularidade consiste na aceitação das diferenças inter-individuais, enquanto autonomia é o primeiro elemento de compreensão do significado de “sujeito” como complexo individual. Ou, como diria Morin, a componente egocêntrica deste complexo é englobada numa subjetividade comunitária mais larga., porque ser sujeito é ser autônomo, sendo ao mesmo tempo dependente.

Desde o início, prevaleceu uma matriz axiologia bem definida no projeto da Ponte. Tudo aquilo que fizemos decorreu de valores. Não se pense que tais valores foram mero ornamento de um PPP. Eles foram assumidos integral e praxeologicamente pela equipe. E levados às últimas consequências, nas mudanças, que, gradual e responsavelmente, introduzimos nas práticas, até à celebração do primeiro contrato de autonomia de que há memória no mundo da educação.

A autonomia exprime-se como produto da relação. Não existe autonomia no isolamento, mas relação EU-TU, no sentido que Buber lhe outorga. É, essencialmente, com os pais e os professores que a criança encontra os limites de um controlo que lhe permite progredir numa autonomia, que é liberdade de experiência e de expressão dentro de um sistema de relações e de trocas sociais. Conclusão: a autonomia convive com a solidariedade. Certo dia, acolhemos na Ponte um jovem jogado fora de outra escola. Na primeira ida ao banheiro, o jovem urinou no cesto dos papéis. Na reunião da Assembleia de Escola, um aluno pediu a palavra e disse:

Eu faço parte da Responsabilidade do Recreio Bom, que também cuida dos banheiros. Quero dizer-vos que, nesta semana, um de nós urinou no cesto dos papéis. E quero pedir a ajuda de todos, para ajudarmos um de nós a não voltar a fazer isso.

Beleza

“A voz da beleza fala delicadamente: ela se move dentro das almas mais iluminadas.”

(Nietzsche)

Se fizermos uma análise de conteúdo dos projetos político-pedagógicos das nossas escolas, concluiremos que quase todos contêm termos como: autonomia, cidadania, solidariedade… Porém, nunca vi algum PPP que contemplasse a beleza no seu texto, como valor a desenvolver na prática. O fato é surpreendente, porque, ou a educação é um ato estético, ou não é educação.

Se a beleza está nos olhos de quem vê, de quem sente, ela requer um exercício de sensibilidade, mas, num currículo que privilegia as áreas ditas nobres (Matemática, Língua Portuguesa…), as artes são remetidas para horários escusos, contra-turnos e tempos livres. Se bem que possa haver arte no ensino da matemática – que, in illo tempore, era disciplina próxima da música –a clássica aula dificilmente conseguirá que o ser sensível se revele. E, sem a vivência da beleza, somos impedidos de experienciar o amor e a liberdade, que, juntos, nos conduzem pelos caminhos da sabedoria.

A par do consumo cultural das famílias, o curricular desprezo pela área artística talvez seja responsável, por exemplo, pelo “gosto” musical dos jovens do nosso país, um “gosto” que não ultrapassa o nível da indigência. Em lugares públicos, os nossos ouvidos são impunemente agredidos por crews, sertanojos universitários e outras aberrações, expelidas por potentes caixas de som (cujo nível de decibeis faz tremer as viaturas que as transportam), por celulares, por mp3 e outros veículos de propagação de ruído.

Nos idos de 1970, quando partilhava Vivaldi com os meus alunos, descobri que só amamos aquilo que conhecemos. Fiquei feliz por lhes ter dado a conhecer Vivaldi e muitos outros gênios da música. E fiquei triste, quando conheci o Fábio. O moço queria ser violoncelista, mas decidiu estudar Direito. Disse-me: Depois, quando eu tiver um emprego, se verá…

Escreveu Murilo Mendes que a educação deveria formar as pessoas para serem poetas a vida inteira. Pessoas (porque as escolas são as pessoas que nelas vivem o drama educacional) que, não somente saibam fazer versos, mas que vivam em poesia, que percorram o curso da existência a poetizar os seus gestos. Porém, muitas escolas tendem a formar bonsais humanos, criaturas que ignoram que quem nunca se comoveu com uma suite de Bach para violoncelo talvez nunca tenha existido.

Deve preocupar-nos o fato de muitos professores se deixarem manipular pela praga da cultura de massa. Desde o útero, sofremos a degradação da ética e do sensível. E, para completar a tragédia – que a família inaugura e a escola amplia – quase toda a mídia parece empenhada numa campanha de imbecilização das massas, que talvez vise manter o povo culturalmente alienado, num estado de subdesenvolvimento estético.

Fui fazer uma palestra numa cidade do Interior, mas quase não conseguia fazer ouvir a minha voz. Lá fora, a elevada potência de uma aparelhagem de som ampliava a cantoria de uma esganiçada dupla sertaneja. Liguei a TV. Eram três os canais disponíveis. Em dois deles, passavam novelas. No terceiro, um programa idiota, que dá pelo nome de Big Brother. Desliguei. Fiquei a pensar na sorte de muitos dos nossos concidadãos, privados da fruição do belo. E adormeci a pensar nas escolas… Felizmente, acompanhado do concerto dos pássaros, num fim de tarde feito da beleza que têm as pequenas coisas.

Coerência

“Valores falsos e palavras enganosas: esses são os piores inimigos para os mortais.”

(Nietzsche)

Ser coerente será apenas ser congruente, estabelecer concordância entre idéias e fatos? No contexto escolar, talvez a coerência assuma a forma de fidelidade a princípios… Porém, em nome da verdade (palavra rara nos projetos político-pedagógicos das escolas) se diga que valores abundantes no discurso pedagógico raramente se traduzem em atitudes, talvez por não serem passíveis de concretização no contexto de uma sala de aula. Por exemplo: se o professor tem dever de obediência hierárquica, se não é autônomo, como poderá educar em autonomia? Ninguém dá aquilo que não possui. Se a autonomia é algo que se exerce em relação a outrem e o professor está sozinho na sala de aula, como poderá ensinar autonomia? O professor não ensina aquilo que diz; o professor transmite aquilo que é.

A mudança das instituições processa-se a partir da transformação das pessoas que as compõem e mantêm. Se o professor pretende despertar sentimentos de respeito ou de responsabilidade nos seus alunos, precisa colocar esses sentimentos nas suas atitudes. Por que ficar entre o discurso da mediocridade e a linguagem do gênio, por que ficar no meio-termo? Schweitzer foi coerente: abandonou o conforto da cidade, foi selva adentro e consumou ideais.

Cortázar escreveu que uma ponte só é verdadeiramente uma ponte quando alguém a atravessa. Tão importante como escutar uma palestra ou ler um livro é escutar-se, escutar a si próprio, verificar a coerência entre o ato e a teoria. E saber fundamentar aquilo que se faz, assumindo compromissos. A teoria converte-se em ação, quando assumida em situações reais.

Precisamos de menos visionários e de mais coerência praxeológica. Dizia Kurt Lewin: teoria sem prática é viajar no vazio, prática sem teoria é viajar no escuro. Sabemos que a pedagogia age numa fronteira ténue entre intenção e gesto, pelo que não deveremos preocupar-nos apenas com grades curriculares – estejamos atentos aos modos de trabalho, que deverão considerar o ambiente social em que o aluno vive. A escola é apenas um momento da educação; a casa e a praça são os verdadeiros estabelecimentos pedagógicos, dizia-nos Pestalozzi. Não nos esqueçamos da necessidade de harmonizar valores do projeto escolar com os valores do projeto familiar (mesmo que ninguém o tenha escrito…).

Se nos lares e nas ruas escasseia a tranquilidade e a reflexão, como pretender que os nossos alunos se mantenham quietos e calados? Se há professores que atropelam-se ao falar e sussurram ao pé do ouvido do colega do lado, como poderão exigir dos seus alunos o levantar a mão, para solicitar a sua vez de falar? Essa postura de cidadania básica não é comum no decurso de reuniões de professores… E a incoerência pode gerar situações de embaraço: Ó professora, faça o favor de jogar fora a pastilha elástica. Nós somos proibidos de a usar!

A velha história é contada assim: Aquele barco a remos fazia a travessia de um rio. Num dos remos, tinha escrita a palavra acreditar; no outro, a palavra agir. O barqueiro explicou porquê. Usou o remo, no qual estava escrito acreditar, e o barco começou a dar voltas, sem sair do mesmo lugar. Depois, usou o remo em que estava escrito agir e o barco girou em sentido oposto, sem ir adiante. Quando usou os dois remos, num mesmo movimento, o barco navegou até à outra margem. Não “remou contra a maré” ou ao “sabor da corrente”. Uniu duas margens pelo impulso da escolha que lhe imprimiu um rumo coerente.

Desapego

Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos

(Fernando Pessoa)

Escola é construção social, currículo é construção histórica e reflete ideologia. Até há pouco tempo e excetuando algumas esparsas experiências, a educação escolar era entendida apenas como treinamento no domínio cognitivo, sendo ostracizadas as dimensões do afeto, da emoção e até mesmo da espiritualidade. Ignorava-se que currículo não é apenas conteúdo, mas também múltiplas experiências proporcionadas ao aluno. Entre elas, a aprendizagem da autonomia. Então, adotemos o princípio kantiano, que nos diz que o objetivo principal da educação é o de desenvolver em cada indivíduo toda a perfeição de que ele seja capaz.

Apresenta-se como imperativo ético que assumamos o desapego, sem o qual, apenas fomentamos crônicas dependências naqueles com quem compartilhamos a existência. Fomentemos uma autonomia, que não é auto-suficiência e solidão, mas algo que se exerce relativamente ao outro, com o outro, sem desistir do outro, embora, como diria a Clarice aquilo que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.

A carta do meu amigo Jean dizia-me: O meu pai faleceu nesta madrugada. É difícil exprimir tudo o que sinto. O meu pai viveu muito e bem, soube viver e soube morrer. Permaneceu lúcido até ao fim, e penso que não foram as dores físicas que o fizeram partir. Há cerca de um mês, ele disse-me: “Quando a vida já não pode ser melhor…” Nos seus 87 anos, viu duas guerras mundiais e exerceu a profissão de professor. Nas últimas duas semanas de vida, já quase não se alimentava e falava com uma voz quase inaudível: “É sempre preciso partir… Sê feliz, Jean, tenta fazer o que puderes para ser feliz.” Agora, que vejo estas palavras escritas no meu computador, parecem-me poucas. Eu sei que havia mais. Acho que o meu pai tinha aquela capacidade de dizer coisas por trás das palavras que dizia. Peço-lhe desculpa por este desabafo. Há tanta coisa ainda cá dentro! E há tanta vida ainda para viver!

É bem difícil o desapego de pessoas, momentos e coisas. Está fora de causa que não amemos aqueles seres que se vão para sempre, mas talvez essas dolorosas partidas devessem ser bem mais suaves. A morte nada tem de trágico, a não ser para quem não viveu. A pessoa que mais vive não é a que conta maior número de anos, mas aquela que mais sabe sentir a vida.

Nas escolas ensina-se quase tudo, exceto a saber viver, para saber morrer. A Tanatologia ensina o aprender a morrer, mas nunca estamos preparados para perdas e lutos. Quando um ser querido se vai para sempre, morremos para ele. E é fato que nunca nos ensinaram a desaparecer…

Por mais que a frase aparente contradição, diria que desapego é compartilhamento. Mesmo na ausência se pode compartilhar – que o digam as práticas quânticas. Um mestre do desapego, o Dalai Lama, aconselha-nos a que, nem que seja por egoísmo, façamos alguém feliz – fazer alguém feliz, mesmo à distância, é um modo de exercitar o desapego.

Ao morrer, Alexandre Magno, determinou que os tesouros conquistados fossem espalhados no caminho até seu túmulo e que suas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos. Nascemos nus, partimos nus, nada nos pertence. Não façamos listas de livros emprestados. Tenhamos a bondade de desaparecer, deixando um rasto luminoso de palavras e gestos, a iluminar novos caminhos de novos passantes.

Esperança

O que faz andar a estrada? É o sonho.

Enquanto a gente sonhar, a estrada permanecerá viva.

É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro

(Mia Couto)

Godlad dizia que todo o educador é um otimista. Ouso discordar. Estou muito mais próximo da convicção do amigo Rubem, que nos diz ser o educador um esperançoso. Porque o otimismo é da natureza do tempo e a esperança é da natureza da eternidade, e, entre o sim e o não, muita coisa existe… existe a esperança de um tempo novo, um tempo de atos criadores e de vida gratuita.

As atas da Conferência de Ministros da Educação, há quarenta anos realizada em Caracas, reza assim: toma corpo a ideia de uma educação libertadora, que contribua para formar a consciência crítica e estimular a participação responsável do indivíduo nos processos culturais, sociais, políticos e econômicos. Três anos antes, a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, reunida em Medelim, também registrava em ata: A Educação em todos os seus níveis deve chegar a ser criadora, pois devemos antecipar o novo tipo de sociedade que buscamos na América Latina. Decorridas quatro décadas, move-nos a esperança de que, algum dia, essas vozes sejam ouvidas.

Esperança, em seu sentido mais genuíno, significa fé na bondade da natureza humana. significa confiar, acreditar ser possível ensinar (e aprender!) o diálogo, o reconhecimento da diversidade, a amorosidade, a solidariedade, a alegria, a justiça, a ética, a responsabilidade social, o respeito, a cidadania, a humanização da escola. Utopia! – Exclamarão alguns. Mas, como nos avisa Robert Musil, a utopia é uma possibilidade que pode efetivar-se no momento em que forem removidas as circunstâncias que obstam à sua realização…

Knecht, personagem criada por Herman Hesse, desejava educar uma criança que ainda não tivesse sido deformada pela Escola, instituição que se mantém conivente com a perpetuação de um estado de desequilíbrio entre um imenso progresso técnico e a nossa sobrevivência numa espécie de proto-história da humanidade, feita de sofrimento humano e corações vazios, na qual ainda precisamos de aparatos sociais como tribunais e prisões. É bem verdade que uma modernidade prometeica fez-nos desesperançosos, mas mantenhamos a esperança de chegarmos vivos ao fim da vida… Escutemos o Mestre Agostinho, quando nos diz ser possível que as crianças sejam tão livres e desenvolvidas, que possam governar o mundo pela inteligência e imaginação, e não por saberem muita aritmética ou ortografia. Mestre Agostinho tinha esperança de que a criança grande, que habita em cada um de nós, pudesse dar ao mundo o exemplo do que deve ser “vida gratuita”, para que ninguém tenha de pagar para viver e trabalhar para viver, para que ninguém mais passe a vida amuralhado e encerrado entre grades e renasça para ser aquilo que devia ser.

Somos do tamanho dos nossos sonhos, como afirmou o Fernando Pessoa. No tempo em que o projeto da Escola da Ponte teve início, era a esperança que nos movia. Diziam-me que, com professores como aqueles que tínhamos, na época, não seria possível fazer avançar o projeto. Mas foi com aqueles professores, acreditando na capacidade de se transcenderem, que o projeto da Ponte começou. Foi esperançosamente que ele prosperou. Nóis pode!… – como diria o amigo Tião.

Felicidade

O meu coração estava preso às crianças, a sua felicidade era a minha felicidade – elas deviam ler isso na minha fronte, perceber isso nos meus lábios, a cada instante do dia.

(Pestalozzi)

O Guardian publicou um estudo da London School of Economics, no qual se defende que o principal objectivo das escolas deverá ser o de ajudar a criar pessoas bondosas e felizes. O estudo recomenda que se intensifique a educação moral dos jovens, mostrando-lhes que a felicidade não se alcança quando se concebe o mundo como objeto de satisfação pessoal, mas quando existe preocupação pelo bem-estar do próximo.

Um recente inquérito, realizado junto de pais de alunos de Belo Horizonte, confirma a conclusão do estudo. Inquiridos sobre aquilo que mais desejavam que a escola desse aos seus filhos, os pais responderam: mais do que aprender conteúdos, que também é preciso aprender, queremos que os nossos filhos sejam felizes na escola.

A resposta majoritária só surpreenderá quem não conheça, por dentro, as escolas que ainda temos. Nelas reina a obsessão por uma competitividade que deteriora a relação e produz solidão, que o mesmo é dizer, infelicidade. Em contraste com o desejo explicitado pelos pais dos alunos, os projetos político-pedagógicos raramente referem a felicidade como valor, ou objetivo a alcançar. E as práticas predominantes vão à contramão desse desiderato. Diz-nos Ortenila Sopelsa que “dificilmente encontramos uma criança com idade escolar que não anseie em entrar na escola, cheia de sonhos e fantasias. Mas a grande maioria das crianças sente a escola como algo que oprime, ridiculariza e discrimina”. Urge, pois, converter as nossas escolas em espaços de bem-estar, onde não se fragmente a realidade, nem se banalize os gestos de humanidade. Um ambiente caracterizado pela serenidade, pelo cuidar da relação. Numa relação de um Eu com um Tu, na qual o professor seja aquilo que é, seja tão autêntico quanto for possível e o Tu não seja tomado por mero objeto.

Infelizmente, muitos pais agravam ainda mais os efeitos de uma escola desumanizada, quando convencem a prole de que a felicidade é um direito adquirido e de que os filhos de tudo são merecedores sem esforço, quando a felicidade não depende daquilo a que, apenas por estarmos vivos, temos direito e nos falta, mas do bom uso que fazemos daquilo que temos. Num tempo de inflação hedonista, torna-se premente a tarefa de aprender a saber lidar com as frustrações pessoais.

Atingimos um estado de espírito, que pode ser considerado de felicidade, quando aliamos realização pessoal à aprendizagem das coisas, em comum concretizada – a minha realização é realização com os outros. Felicidade é fazer amigos, dar-se sem medida, aceitar e ser aceite, viver em harmonia consigo e com os outros.

“Vamos fazer uma escola feliz” foi o nome que as crianças deram ao primeiro jornal escolar da Escola da Ponte. Com os alunos, compreendemos que há muitos modos de fazer escolas felizes. O Nelson chegava à escola pontualmente atrasado. Mas, naquele dia, somente se dignou chegar no fim da manhã. Quis saber a razão de tamanho atraso. O Nelson esclareceu:

Olha, professor, nesta noite, ninguém conseguiu dormir, lá em casa. Os ratos roeram uma orelha do meu irmão mais pequenino. Ele estava cheio de sangue, gritou muito, e a minha mãe foi com ele para o hospital. Eu tive de cuidar dos meus irmãos, até ela voltar…

Mas por que não ficaste em casa, a descansar? Por que vieste para a escola, amigo Nelson? – perguntei.

Olha, professor, eu vim para a escola porque, quando venho para a escola, pelo caminho, sinto uma coisa cá dentro… Olha, professor, o que eu sinto cá dentro parece mesmo… alegria!

Gratidão

Desta vez, trago-vos algumas histórias e fico grato pelo tempo que possa ser dispensado à sua leitura. Falam-nos de gratidão e poderão fazer-nos pensar no quanto a gratidão fará, ou não, parte das nossas vidas. Estou certo de que sabereis extrair a moral das histórias.

Uma brasileira, sobrevivente de campo de extermínio nazi, contou que, por duas vezes, esteve numa fila que a encaminhava para a câmara de gás. E que, nas duas vezes, o mesmo soldado alemão a retirou da fila.

Aristides de Sousa Mendes foi cônsul de Portugal na França. Quando as tropas de Hitler invadiram esse país, Salazar ordenou que não se concedesse visto para quem tentasse fugir do nazismo. Contrariando o ditador, Aristides salvou dez mil judeus de uma morte certa. Pagou bem caro a sua atitude humanitária, Salazar destituiu-o do cargo e o fez viver na miséria até ao fim da vida. Diz um provérbio judeu que quem salva uma vida salva a humanidade. Em sinal de gratidão, há vinte árvores plantadas em sua memória no Memorial do Holocausto, em Jerusalém. E Aristides recebeu dos israelenses o título de “Justo entre as Nações”, o que equivale a uma canonização católica.

Quando um empregado de um frigorífico foi inspecionar a câmara frigorífica, a porta se fechou e ele ficou preso dentro dela. Bateu na porta, gritou por socorro, mas todos haviam saído para suas casas. Já estava muito debilitado pela baixa temperatura, quando a porta se abriu e o vigia o resgatou com vida. Perguntaram ao vigia-salvador: Por que foi abrir a porta da câmara, se isso não fazia parte da sua rotina de trabalho? Ele explicou: Trabalho nesta empresa há 35 anos, vejo centenas de empregados que entram e saem, todos os dias e esse é o único funcionário que me cumprimenta, ao chegar, e se despede, ao sair. Hoje, ele me disse “bom dia”, ao chegar. E não percebi que se despedisse de mim. Imaginei que poderia lhe ter acontecido algo. Por isso, o procurei e o encontrei.

A minha amiga Ângela enviou-me uma mensagem que a sua neta Giovanna redigiu para um ente querido, que falecera: (…) quero falar sobre o presente de Rei. Acredito que não possa ser algo material, pois não posso levá-lo com a morte. Meu presente de Rei é uma lembrança. Um dos grandes presentes que a vida nos deu foi o tempo passado ao lado desse grande amigo. Seu coração e sua casa sempre foram um grande albergue, recebendo cunhados, amigos e sobrinhos, como se fossem seus próprios filhos. Obrigado por ter estado presente em nossas vidas.

Era uma vez… dois amigos: Amir e Farid. Durante uma viagem, Farid resolveu tomar um banho e foi arrastado pela correnteza do rio. Amir atirou-se no rio e o salvou. Grato, Farid ordenou a um seu escravo que escrevesse numa pedra, em letras grandes: “aqui, com risco de perder sua vida, Amir salvou o seu amigo Farid”. Mais tarde, numa discussão, Amir esbofeteou Farid. Este se aproximou da margem do rio, e escreveu na areia: “aqui, por motivos tolos, Amir esbofeteou Farid”. O escravo, que escrevera na rocha a frase anterior, ficou intrigado: Senhor, quando fostes salvo, mandastes gravar o feito numa pedra. Agora escreveis na areia a ofensa recebida. Por que agis assim? Farid olhou o escravo e respondeu: “os atos de de amor devem ser gravados na rocha, para que todos os que tiverem oportunidade de tomar conhecimento deles, procurem imitá-los. Porém, quando recebermos uma ofensa, devemos escrevê-la na areia, bem perto das águas, para que seja por elas levada.

Talvez a gratidão devesse ser uma rotina nas nossas vida, algo indissociável da relação humana, mas talvez ande arredada dos nossos quotidianos gestos. E se começássemos cada dia dando gracias a la vida, como faria a Violeta?

Honestidade

Vós, diz Cristo, falando com os pregadores, sois o sal da terra.

E chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal.

O efeito do sal é impedir a corrupção.

(Padre António Vieira)

A imprensa fez eco de um “caso de cola”, protagonizado por alunos do Centro de Estudos Judiciários. Cito o articulista: Esses formandos foram reduzidos ao estatuto de alunos e os formadores elevados à categoria de catedráticos. E, assim, em vez de efetiva preparação profissional, o CEJ ministra um ensino essencialmente teorético, em que a cabeça dos formandos é atulhada com tecnicidade jurídica pelos seus omniscientes mestres. Não admira que, assim tratados, os chamados auditores de Justiça se comportem como alunos, para quem copiar nos exames sempre foi uma espécie de direito natural.

Diz a sabedoria popular que cesteiro que faz um cesto faz um cento. Quem pratica a fraude numa prova, não a praticará no exercício das suas funções? Temos razões para preocupar-nos com a degenerescência da honestidade em pessoas encarregadas de fazer justiça, como em qualquer atividade humana. E, quando ela se manifesta na escola, talvez explique a degenerescência restante…

Um professor-vigia de uma prova nacional foi instruído pelo “manual do aplicador” a colocar os alunos a uma “distância prudente” uns dos outros. Inteligente, como qualquer professor, apercebeu-se de que, sem nada dizer, o não-verbal falava mais alto do que o verbal e que ele agia como quem considerava estar na presença de seres potencialmente desonestos. Com tal procedimento, estaria a praticar o chamado “currículo oculto”, a transmitir valores negativos aos alunos: mentira, deslealdade, falsidade, “espertismo”… E, como esse professor, para além de inteligente, é sensível, sentiu-se um ser miserável.

Uma escola brasileira decidiu enviar os deveres de casa através da internet. Aqueles alunos que realizassem todas as tarefas seriam recompensados com um ponto extra na média do bimestre. A “inovação” foi um sucesso enquanto durou. Certo dia, um professor dessa escola descobriu que as respostas constavam de um site de relacionamento criado por uma aluna. A criativa aluna foi ameaçada e instada a retirar as respostas do site. Acabou sendo suspensa, disciplinarmente mandada para casa.

Li num dístico, à entrada de um hotel: “Caro hóspede, devido à triste estatística de três ou quatro toalhas extraviadas por mês, estamos intensificando a revista após o fechamento da sua conta”. O absurdo virou instituição. Habituamo-nos a conviver com roubos e corrupções. O desrespeito pela pessoa humana banalizou-se. O Brasil está imerso numa profunda crise moral. Fingir que não se vê poderá considerar-se corrupção moral passiva.

O Gastão é professor e homem que se diz íntegro. Um amigo do Gastão ganhou a eleição para a prefeitura e convidou-o para ser o chefe de divisão de educação, criada pelo novo prefeito. Porém, seria necessário conferir seriedade à escolha. Foi aberto concurso público, concurso universal. Supostamente, qualquer cidadão, qualquer professor poderia concorrer. Em pé de igualdade!

Falta referir que o critério básico para admissão a concurso foi ser titular de licenciatura em… Ciências da Religião. O Gastão foi o primeiro (aliás, o único) classificado no concurso. Acrescente-se que o Gastão é professor de… Moral.

É preciso acreditar que a crise moral, em que este país está imerso, será civicamente contrariada, debelada, mas não através da educação que ainda temos. Vale a pena acreditar que outra educação é possível, cultivar a integridade, pois, como já o velho Platão nos avisava, é curta a distância entre a corrupção moral e a tirania.

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Indignação

Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca

(Darcy Ribeiro)

A Clarice dizia-nos que aquilo que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo. Talvez por isso, em plena ditadura, o Mestre Agostinho recusou assinar um documento, que os esbirros da época exigiam de qualquer candidato ao exercício da profissão de professor. Esse e outros corajosos gestos valeram-lhe o exílio no Brasil (o que acabou sendo benéfico para o Brasil…).

Recentemente, um ativista indiano entrou em greve de fome e disse estar disposto a morrer contra a corrupção. E, no Brasil, a OAB criou um site: “Observatório da Corrupção”. Perante a ética deturpada e uma inversão de valores, como não há memória, estes sinais dizem-nos que nem tudo estará perdido.

Mas, na contramão destes esperançosos gestos, o correspondente no Brasil do jornal “El País” escreveu: Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção? Quando o time perde, o brasileiro reclama, vai ao aeroporto, de madrugada, para xingar os atletas. Por que não exige a reforma política, o acabar de aposentadorias milionárias, a prisão de políticos corruptos?

Vivemos numa sociedade enferma de uma total inversão de valores. Pessoas justas são confundidas com as injustas, quase não faz sentido distinguir honestidade e desonestidade, vale tudo na senda do sucesso que tudo deturpa e corrompe. E o medo tudo faz esquecer, como se jamais algo hediondo tivesse acontecido.

A palavra ética deriva do grego ethos (caráter, modo de ser de uma pessoa), representa um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. Eticamente, como pode um povo suportar, por exemplo, que deputados, que não exercem o cargo para que foram eleitos, exerçam outros, acumulando a remuneração do cargo com a de deputado?

Sempre que me perguntam qual foi o maior obstáculo à concretização do projeto da Escola da Ponte, eu respondo: o maior obstáculo fui eu. Fui eu, enquanto não me indignei, enquanto não agi, para assegurar o saber e a felicidade aos meus alunos. Só eu, num agir não-solitário, poderei mudar algo. Ainda que alguém creia que o esforço de um só nada vale, é preciso agir. Mesmo que o medo nos assalte, é preciso reagir. Sem a coragem da indignação, a sabedoria é estéril. Como diria o Galeano: O inimigo principal qual é? A ditadura militar? A burguesia? O imperialismo? Não, companheiros. Nosso inimigo principal é o medo!

“Tropa de Elite 2” foi o meu filme do Natal de há dois anos atrás. Nada melhor, para escapar ao frenesim neurótico dos shoppings, do que mergulhar num caos de violência e morte, assistir às tentativas vãs de um Capitão Nascimento idealista, que se apercebe de que a guerra que trava não é dos bons contra os maus, que o mundo não é a preto e branco. O filme termina com a câmara de filmar sobrevoando Brasília. E o público irrompe numa entusiástica ovação. Depois, toda aquela gente, que aplaude um herói entregue às suas lutas contra policiais e políticos corruptos, volta para as suas casas, para a segurança de um emprego, para vidinhas feitas de novelas e big brother. Onde acaba a realidade? Onde começa a ficção?

Escutemos Drummond: Provisoriamente não cantaremos o amor / Que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos / Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços / Existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro. E não nos esqueçamos de que “Dignidade” era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e “Liberdade” era o nome da maior prisão da ditadura uruguaia.

Justiça

Quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, qual será a causa desta corrupção? Ou é porque os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber.

(Padre Antônio Vieira)

Continuemos ao estilo do Padre Antônio Vieira. Desistindo de convencer os homens, Vieira dirigiu os seus sermões para seres mais sensíveis: os peixes, alheios às renúncias dos homens. Aos peixes, discretas testemunhas da corrupção de costumes praticada por aqueles que pela terra vão cumprindo os seus dias e que das injustiças não traduzem consciência.

Escutemos Vieira: Ou é porque os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou – poderia acrescentar – porque andam tão distraídos nas suas lides de ganhar a vida, que a perdem. Ou por pressentirem que da corajosa denúncia da corrupção poderá advir nefasta consequência para si e para os seus.

Assistimos ao uso e abuso do poder. O patrimônio comum é usado em favor de uns poucos, em actos que quedam impunes, não sendo raro que os seus suspeitos autores sejam considerados pessoas de bem, a quem são atribuídas honrarias. Convivemos com um descarado tráfico de influências, vemos o erário púbico ser defenestrado, efetuadas transações de bens à margem dos procedimentos legais. Os conceitos respeito pela pessoa humana e de justiça banalizaram-se.

Bento XVI diz que os cristãos não deverão respeitar leis injustas. Mas, num país que conta mais de um milhão de leis, a única lei que se cumpre sem excepção parece ser a da gravidade… Pois que se aja e se assuma resiliência, porque ainda há gente que se importa. Numa época de injustiças como a nossa, façamos a nossa parte, façamos luz sobre os males de que o mundo padece, para que sejam abertos rasgões de luz na cortina de escuridão que sobre ele caiu, e sob a qual prosperam ladrões e tiranos. Urge debelar o medo, esse disfarce usado quando se faz o que sempre se fez, como se nada de indigno tivesse acontecido.

Diz-nos o dicionário que valor (do latim valôre) é qualidade de quem pratica atos extraordinários e, eticamente, um princípio passível de orientar a ação humana. Se assim for, convirá seguir o preceito do Dalai Lama: Precisamos ensinar, do jardim de infância até a faculdade, que a moralidade é o caminho da felicidade. O sistema educacional moderno presta somente atenção no desenvolvimento do cérebro e não o desenvolvimento moral. Porque, se a escola não é o primeiro lugar para se educar o indivíduo, também não deverá ser o primeiro lugar de o deseducar, mas um lugar e tempo de aprendizagem de valores. Quando, no quadro de uma reorganização curricular, se instituiu “uma hora semanal de educação para a cidadania”, eu questionei os autores da proposta: por que razão não deveriam ser as restantes horas de “educação na cidadania”? Quem nunca viu uma criança a furar a fila da merenda? Quem nunca viu a família dessa criança a jogar lixo na rua e a entupir os bueiros?… Até que ponto a escola pode apenas promover uma inútil acumulação cognitiva e se demitir da função de educar?
Clamemos por justiça, onde quer que os nossos atos possam promovê-la, atenuando a crise da sua ausência. Leonardo Boff diz-nos que a crise que nos afeta não uma crise cíclica e que uma nova ordem mundial é necessária, um novo modo de habitar a Terra. E Alain Tourraine lança um alerta: ou a crise acelera a formação de uma nova sociedade, ou vira um tsunami que poderá arrasar tudo pela frente, pondo em perigo a nossa própria existência no planeta.

Lealdade

Olhe em cada caminho com cuidado e atenção. Então, faça a si mesmo uma pergunta: possui este caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom… caso contrário, esse caminho não possui nenhum significado.

Carlos Castañeda

Quando criança, eu inquiria o porquê das coisas e escutava a inevitável resposta: Um dia, hás-de perceber por que razão aprendes estas coisas.

Já sexagenário, continuo sem saber quando chegará esse dia. Continuo sem perceber o porquê de muitas coisas com as quais “me prepararam para a vida”. Contudo, sei que o essencial é aprendido com aqueles que partilham o nosso viver. Somos aquilo que somos mais o contágio daquilo que os outros são. Colhi de maravilhosas criaturas extraordinários ensinamentos. Com eles me identifiquei e, antropofagicamente, deles absorvi valores. E se a lealdade, como qualquer outro valor, com gente leal e no exercício da lealdade se aprende, no quotidiano das escolas a cultivei.

Diz-nos o dicionário que lealdade é qualidade, ação ou procedimento de quem é leal, honesto, fiel a compromissos. Se os jovens estão sempre atentos ao exemplo de vida dos adultos e aos valores que eles traduzem, se, através do exemplo, não formos leais, abriremos espaço para desenvolvimento de contra-valores. Em que vida estamos a educar os nossos jovens? Numa uma vida feita de lealdade a princípios e a gentes? Que virtudes são ensinadas aos nossos jovens, aprendidas pelos nossos jovens?

Não nascemos reflexivos; aprendemos a refletir. Não nascemos com virtudes; aprendemos virtudes. Em secretas, mas extraordinárias escolas, venho aprendendo a lealdade a ideários. Com outros educadores, busco assumir o princípio básico de Santo Agostinho: quando não se pode fazer tudo o que se deve, deve-se fazer tudo o que se pode, sendo leal a si-mesmo. No Brasil, reaprendi a lealdade a novos companheiros de projeto. Na história recente deste país, creio que Nise da Silveira terá sido um dos símbolos maiores da lealdade, de uma lealdade entendida como fidelidade a princípios. Nela reconheço o seu exemplo e inspiração. A sua figura emerge de um tempo conturbado e no contexto de uma sociedade alienada e alienante, uma civilização desviada para um abismo de si mesma. Nise sofreu a repressão, a discriminação, mas manteve-se leal a si mesma e àqueles que, nos asilos de então, recebiam o seu eletrochoque diário.

Quando o médico-chefe lhe ordenou que executasse a eletroconvulsoterapia, Nise recusou apertar o botão do eletro-choque. Com esse ousado gesto, mudou de forma definitiva o tratamento psiquiátrico que se fazia no Brasil, influenciou, em definitivo, a psiquiatria do país. E precipitou a sua prisão (ainda que, como bem disse Clarice, prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio). Assim foi que outro escritor, Graciliano Ramos, companheiro de cárcere de Nise, a ela se referiu: a sua presença benfazeja afugentava lembranças ruins, “a pobre moça esquecia os próprios males e ocupava-se dos meus”. Lealdade! Lealdade a princípios, lealdade aos seus “loucos”, enfrentando a loucura de fora de asilo. Salomão avisou-nos: o homem instruído que se separa das virtudes é como jóia preciosa em focinho de porco. E Sêneca disse-nos que “não se deve ensinar para a escola mas para a vida”: “non scholae, sed vitae est docendum”. Com toda a ousadia que o meu gesto pressupõe, acrescentaria ao preceito desse contemporâneo de Jesus, o exemplo cristão de não ensinar “para”, mas ensinar “com” – é “na vida” e não “para a vida”. É com os outros (discípulos, adeptos, companheiros…), no hic et nunc da humana existência, que a educação acontece.

Meio Ambiente

(À memória de Walter Steurer, no primeiro aniversário do seu falecimento)

Quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, vocês vão entender que dinheiro não se come.

(Greenpeace)

É provável que um jovem passe cerca de uma década a estudar a necessidade de cuidar dos recursos naturais, em manuais didáticos, numa escola que se mantenha na margem de uma possibilidade concreta de intervenção. É provável que uma criança ingresse na primeira série em uma escola ao lado de um córrego poluído e saia de lá, ao cabo de alguns anos, com o córrego ainda mais poluído. É bem provável que os seus professores atravessem décadas de aulas, sem lançar um olhar sequer para além dos muros da escola…

A Terra está doente porque nós estamos doentes. E doente continuará, enquanto a nossa maneira de viver for reproduzida nos valores que muitas escolas insistem em transmitir. A racionalidade que prevalece na maioria das práticas escolares augura tempos ainda mais sombrios e de graves conflitos sócio-ambientais. Poder-se-ia pensar que a uma escolarização prolongada propiciaria uma maior consciência ambiental, mas isso raramente acontece, por efeito de uma escola distante da vida real.

Entrei no banheiro de um aeroporto, lugar de passagem de executivos, pessoas de “formação superior”, supostamente na posse de muitos conteúdos de educação ambiental. A água escorria abundante de uma torneira avariada. Nenhum daqueles executivos se importou com o fato. Na parede, por cima da máquina de onde eram arrancadas resmas de papel, jogado no lixo quase seco, havia um apelo: “Senhores usuários, sejam educados. Duas folhas são suficientes para enxugar as mãos”.

O americano Richard Louv criou um novo conceito: “transtorno da falta de contato com a natureza”. Verificou a tendência, cada dia mais evidente, de as novas gerações se afastarem do contato com a natureza, de que resulta uma conjunto de problemas comportamentais. As crianças têm bons motivos para ficar dentro de casa: computador, videogames, televisão. Gastam, em média, 44 horas por semana a jogar polegares sobre mídias eletrônicas. Por seu turno, as escolas levam-nas a explorar o ambiente… em livros didáticos.

Urge instituir novas práticas sociais nos lugares onde a educação do caráter acontece. Consciente dessa necessidade, já pensei em fazer um “Guia quatro rodas dos bons exemplos educacionais do Brasil”, pois conheço muitos. Dele constaria, certamente, uma das cartas que o amigo Walter escreveu: Por muito tempo tratamos a Terra como algo a nosso serviço, que podíamos aproveitar ilimitadamente. Nunca pensamos na Terra como sendo nós também parte dela, de seu complexo sistema de vida. O Projeto Âncora tem intensificado cada vez mais o trabalho de consciência ecológica com as crianças e jovens. Acreditamos que esses meninos e meninas além de estarem abertos, mais que os adultos, às necessidades de mudanças em comportamentos e atitudes, sabemos que são capazes de influenciar suas famílias. Nossos índios detém a sabedoria capaz de nos salvar com o Planeta, são capazes de viver em liberdade, tirando da Terra somente o necessário, com uma organização social que não conhece a corrupção, onde o enriquecimento não faz parte das aspirações pessoais, onde o bem estar coletivo está acima de tudo. Em nosso dia a dia, podemos usar a Carta da Terra como nosso código de conduta. Nos alegremos por viver neste momento da história humana, onde nos é dada a possibilidade de mudar o rumo da história e salvarmo-nos da destruição da vida.

Não-violência

A violência é a manifestação da impotência

Rollo May

Uma professora amarrou os pés e as mãos de um aluno de seis anos, prendeu-o a uma cadeira e amordaçou-o com fita adesiva, na frente dos colegas da classe, alegando que queria que o menino ficasse quieto, porque precisava de silêncio na aula.!

Recebi um e-mail vindo de uma professora: Querido amigo, um aluno da nossa escola foi assassinado. Quando se trabalha na periferia é de se esperar que alunos envolvidos no tráfico tenham esse fim, não é mesmo? Porém, o Juan não era esse tipo de menino, era um bobão. Ele provocava a ira de seus colegas e sempre apanhava, nunca batia. Era esse tipo de brigão, que queria mesmo era ser visto, pelo menos. A morte dele foi um golpe que nunca imaginei pudesse doer tanto. As notícias que temos é de que “foi morto por engano, parecia-se com um traficante”. Dezesseis anos de um grande engano! Já fui ao enterro de dois jovens, que foram meus alunos. Na segunda-feira, a vida continua e na escola temos outros Juans, que estamos ajudando tão pouco! Só me sobra a dor. E estas palavras, que de nada valem.

Sei que há quem tente escamotear a morte, se quem morreu foi dispensado em horário de aula, por falta de professor, e acabou sendo morto… por engano. Mas também sei que há educadores indignados, que exigem ações públicas promotoras de paz e segurança. Sei que o Brasil da educação está a gestar humanidade, que a velha escola há-de parir uma nova educação. Eu sei!

O Dia Internacional da Paz foi instituído em 1981. A Assembléia das Nações Unidas decidiu, por unanimidade, proclamar esse dia como um dia mundial de não-violência, convidando os povos, organizações e nações a desenvolver práticas da paz em uma data comum, embora a construção de uma cultura de paz seja um processo contínuo. Por vezes, para ter paz, é necessário incorrer no paradoxo de a reclamar na rua, como fizeram os povos do Egito, da Tunísia, da Líbia. Melhor fora que, no Brasil, tal não fosse preciso fazer… mas será preciso assumir uma estratégia de não-violência, seguir os princípios do mestre Gandhi: é possível lograr a paz através de uma “teimosia pacífica”.

A escola e a família podem exercer grande influência na formação da pessoa, mas a decisão final depende da pessoa. É uma prática cultural voluntária, fruto de opções. É bem conhecida a história que um velho índio contava ao seu neto. Falava de um combate entre dois lobos, que vivem dentro de todos nós. Um é mau, o outro é bom. O neto perguntou: Qual o lobo que vence? O velho índio respondeu: Aquele que você alimenta.

Outro email chegou, trazendo notícia de mais uma tragédia: Estou arrasada! Mataram mais um dos nossos meninos! O Emersom tinha 15 anos, mas parecia ter 10, naquele caixão. Ele era só uma criança perdida. Na escola era um bom menino, mas na vida não teve opção! Eu sinto que a família dele falhou e que não falhou sozinha. Mas ele pagou o preço sozinho! Foi mais um drogado retalhado a faca. Ninguém se importou, nem vai se importar. Me senti impotente, naquele velório. Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance, mas não foi suficiente. Ele já estava marcado para morrer. Peço a Deus para me tirar esse amargo do meu coração e me dar força para continuar lutando por essas crianças. Me ajude!

Otimismo

Transportai um pedaço de terra todos os dias e fareis uma montanha

Confúcio

Se já falamos da esperança, falemos do otimismo. Se este é da natureza do tempo, a primeira é da natureza da eternidade, como diria o amigo Rubem. A experiência humana é uma aventura vivida na fragilidade, mas o otimismo permite que, em alguma parte da Terra um homem esteja sempre plantando, recriando a vida, recomeçando o mundo. Foi a Cora quem o disse. E, milênios depois de Confúcio, no ocidente lusitano, o Fernando Pessoa diria algo semelhante à epigrafe do oriental mestre, afirmando poder construir um castelo com as pedras que lhe barravam o caminho…

Quem ousará questionar um otimismo de poeta? Talvez o Francesco Alberoni que, no belo livro que escreveu sobre o optimismo, alerta-nos: Muitos acreditam que, quando alguém sabe fazer algumas coisas e as repete, ano após ano, alcançará a perfeição. Esta idéia está errada. Quem não aprende, desaprende. Certamente, Alberoni não estaria a pensar naquilo que acontece no domínio da educação e, em particular, das escolas, lugares onde reina um otimismo negativo, a crença de que a experiência radica na mera repetição.

Quando um professor dito “tradicional” confunde formação experiencial com experiência e me diz ter vinte ou trinta anos de experiência de sala de aula, eu esclareço que terá apenas um ano de experiência. Porque, em cada um dos restantes dezenove, ou vinte e nove, ele terá repetido aquilo que foi a sua experiência do primeiro ano do exercício da profissão. Se o professor reage com desencanto, eu respondo com otimismo. Fraternamente, acompanho-o, com ele aprendo, para que tenha coragem de ir reaprendendo. Acredito que todos possam enveredar por um vir-a-ser não repetitivo.

Continuo otimista, quando acolho depoimentos como este: Pensamos em desistir varias vezes e retornar ao caminho antigo. Não existiam modelos. Então, fomos criando estruturas organizacionais que nos permitiram interagir em novas formas com as crianças. Após muito trabalho, muito estudo, chegamos ao fim do ano com muitas conquistas. As crianças demonstravam diferentes aprendizagens e víamos avanços em todas as áreas. As relações afetivas foram ampliadas e um grande sentimento de grupo cresceu entre nos. Os pais mostraram-se satisfeitos com o que viam em seus filhos e apoiaram essa pratica, que no inicio parecia tão ousada e ao final revelava-se tão eficiente. Cresceram as crianças, as professoras, a coordenação, a escola.

Continuemos num registo de otimismo, que é algo que pode ser tomado como característica da personalidade de determinadas pessoas, sempre dependente de um ambiente onde exista uma relação de confiança. Sabemos que escasseia o poder do exemplo, mas o deputado federal proporcionalmente mais bem votado do país fez a sua estréia na Câmara dos Deputados abrindo mão dos salários extras que os parlamentares recebem (14° e 15° salários), reduzindo a sua verba de gabinete e o número de assessores a que teria direito, tudo com caráter irrevogável. Também reduziu em mais de 80% a cota interna do gabinete de R$ 23.030 para apenas R$ 4.600. Prescindiu de toda verba indenizatória e de toda cota de passagens aéreas e do auxílio-moradia. Com esta (solitária) atitude, irá levar os cofres públicos a economizar mais de R$ 2,3 milhões, nos quatro anos do seu mandato. O deputado José justificou deste modo a sua decisão: Um mandato parlamentar pode ser de qualidade custando bem menos para o contribuinte do que custa hoje. Esses gastos excessivos são um desrespeito ao contribuinte. Estou fazendo a minha parte e honrando o compromisso que assumi com meus eleitores”.

Não haverá razões para sermos otimistas!

Prudência

Se precisar disparar a flecha da verdade, primeiro molhe a sua ponta no mel

(Provérbio chinês)

O Guardian publicou um estudo da London School of Economics, no qual se defende que o principal objetivo das escolas deve ser o de ajudar a criar pessoas bondosas e felizes. Para esse fim, talvez as escolas devam adotar um modo de funcionamento assente num relacionamento que eleja a estética da sensibilidade, estimulando o espírito inventivo no lugar da mesmice das aulas, habituando o jovem a conviver com o incerto em substituição da reprodução mecânica de um planejamentos de professor. E, sobretudo, jamais separando o desenvolvimento da cognição do desenvolvimento da afetividade. Podemos aprender sem dor. Bastará que a prudência seja posta no ato de educar. E, se a virtude pode ser ensinada, será mais pelo exemplo do que pelos livros.

Será urgente proporcionar às crianças oportunidades de aprenderem a não se compararem com outros, de usarem de um poder, que não sirva para mandar, mas para ajudar. Uma extrema prudência é necessária na criação de novas estruturas, dispositivos, atitudes, pois é um processo complexo, exige longa e perseverante aprendizagem.

Escutemos o Mestre Agostinho da Silva: O que importa não é educar, mas evitar que os seres humanos se deseduquem. Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta. Porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das idéias… Seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário e transformaremos o mundo.

Na Finlândia, alunos são assassinados dentro da escola. Na Coreia, as autoridades educacionais estão empenhadas na desintoxicação do consumo de internet. Em outros países lideres do ranking do PISA, o índice de suicídio juvenil é assustador. No tempo em que trabalhei na universidade, prudentemente, reagi às queixas de uma aluna, que estava prestes a reprovar. A moça, filha única e mimada, vitimizava-se, atribuindo a colegas a causa de todos os seus males, inventando conspirações, cruéis perseguições à sua pessoa.

Certo dia, a aluna entrou na sala, chorosa, dizendo que se iria suicidar. Por prudência, não desdenhei (confesso que senti vontade…), mas, também por prudência, não me demiti, não me desviei da situação… E disse-lhe: Isabel, vai até junto do mar. saboreia um pôr-do-sol. É gratuito, belo e diferente de dia para dia. Se, quando o sol se tiver posto, ainda tiveres intenção de te matar, tens ali o mar… A Isabel não voltou a queixar-se.

Alguns anos decorridos sobre o episódio, recebi um e-mail: Professor, fui junto do mar, ver o pôr-do-sol, como recomendou. Amo a minha profissão, tenho um marido maravilhoso e uma filha linda, linda. Obrigada. Muito obrigada.

Se, naquele fim de tarde, imprudentemente, eu tivesse dado ombro à Isabel, a teimosa continuaria a teimar na culpa alheia. Continuaria errando, no pressuposto de que um mundo astuto conspirava contra ela, que um mundo malvado era a causa do seu insucesso. O mundo cruel, que a Isabel inventara, impedia-a de viver pelo sentimento e agir pela razão. Foi preciso que alguém estabelecesse uma relação de autenticidade, para que a Isabel passasse a usar de prudência nos seus juízos. A Isabel tinha tudo, mas vivia sem ter sido.

Com a expansão das tecnologias digitais cada vez mais seres humanos podem se comunicar, mas as novas conexões ter-nos-ão tornado prudentemente autênticos?

Qualidade de vida

A aquisição desenfreada de brinquedos colaborou muito para que o ato de brincar ficasse em segundo plano. Resultado: as crianças, na atualidade, quando querem brincar não podem e quando podem não querem ou nem sabem mais.

Rosely Sayão

Certamente, todo mundo conhece a história do pescador que, tendo acabado de pescar três peixes, considerava ser alimento suficiente para a família, naquele dia e ia para casa, saborear o dia, saborear a vida. Alguém, contando essa história, acrescentou que esse pescador era um “selvagem”. Mas será selvagem quem recusa ter a subjetividade industrializada, quem se mantém alheio aos ditames de uma economia predadora?

As lojas anunciam os presentes para o Dia das Crianças, para o Natal, ou para assinalar outras efemérides apaziguadoras da febre consumista. As montras estão repletas de Barbies e laptops da Xuxa… Um pai oferece um celular de última geração à filha, que acaba de completar cinco anos de idade. Os jovens creem que, efetivamente, escolhem aquilo que usam a as crianças são manipuladas pela mídia. Quando chegará o dia em que todas as estações de televisão seguirão o exemplo daquela que aboliu comerciais nos intervalos de programas destinados à infância?

O Brasil ocupa o primeiro lugar entre todos os países do mundo que praticam cirurgia plástica para jovens. O jornal A Folha de São Paulo, de 7 de abril de 2011, noticiava a venda de sutiã com enchimento para meninas de seis anos! Uma cidade brasileira, símbolo do desenvolvimento econômico, contava, em 1960, com seis livrarias e uma academia de ginástica. Agora, tem mais de sessenta academias de ginástica e três livrarias. A mesma cidade registra um índice significativo de endividamento dos jovens. No auge do triunfo do hedonismo, a felicidade restringe-se à satisfação de desejos reciclados. Para os escravos do consumismo, renunciar a alguma coisa prazerosa parece significar perda de liberdade. Talvez nunca tivessem olhado os lírios do campo…

Ninguém nasce consumista. O consumismo é um hábito mental instalado. Onde está a educação para um consumo crítico, inteligente? Quando se ensinará a comer, a consumir, quando se aprenderá a viver? Se não aprendermos na escola, onde e quando iremos aprender? Dar a conhecer os perigos do fast food é tão necessário quanto o saber colocar a pontuação correta num texto. Desenvolver a sensibilidade do aluno, de modo a que ele seja sensível a uma suite de Bach é tão necessário quanto saber fazer multiplicações por dois algarismos.

Os 20% mais ricos da população mundial consomem 86% de todos os serviços e produtos. Os 20% mais pobres consomem apenas 1,3%. Os Estados Unidos, que têm 5% da população mundial, utilizam 25% dos recursos mundiais. Poderemos Ignorar que o crescimento econômico e social, da forma como acontece, promove o acúmulo de capital, de modo excludente e com impactos ambientais irreparáveis?

Urge que os educadores, frequentemente, se interroguem: qual será a relação entre educação e vida sustentável? Como se poderá gerar responsabilidade, atitudes de autorreflexão e ações éticas nos alunos? Ensinamos os meus alunos a prevenir a obesidade mórbida, ou a distinguir música de lixo sonoro? Ajudamos os jovens a defenderem-se da febre consumista? Contribuímos para que tenham uma boa qualidade de vida? Para que os cidadãos tenham uma boa qualidade de vida, é preciso que sejam, verdadeiramente, cidadãos. Insistindo no óbvio: para que haja uma boa qualidade de vida, é necessária… uma boa educação.

Responsabilidade

A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa.

Saint-Exupéry

A “Declaração universal para a responsabilidade humana” diz-nos que a humanidade, em toda sua diversidade, pertence ao mundo vivo e participa de sua evolução, que os seus destinos são inseparáveis. E propõe princípios gerais, que podem servir de base para um novo pacto social. Eis um exemplo: O exercício do poder só é legítimo quando serve o bem comum e quando é controlado por aqueles sobre os quais esse poder é exercido; a busca da prosperidade não pode ser desvinculada de uma partilha justa das riquezas; os saberes e as práticas só adquirem todo seu sentido quando são compartilhados e usados em prol da solidariedade, da justiça e da cultura da paz. Isso mesmo: é impossível ser feliz sozinho… Como estamos longe de concretizar os princípios da Declaração! Se um ser humano pode reivindicar seus direitos, deve, igualmente, manifestar consciência de que as suas responsabilidades são proporcionais aos direitos que reivindica, responsabilidade pelo outro, compromisso.

Observo carros ultrapassando a fila pelo acostamento, mentes “enfileiradas” segundo valores inculcados por práticas sociais nocivas. Vejo furar a fila, no banco, na repartição pública. Olho as inscrições pichadas nos banheiros de serviços públicos, manifestações de indigência mental, irresponsabilidade daqueles que ignoram que a assunção da dignidade humana também passa pela utilização de um banheiro.

Numa cidade do interior, ao lado da placa de aviso de quebra-molas, vi uma placa repleta de “nãos”: Não urine na calçada / Não jogue lixo no chão / Não faça sexo na praça / Não saia atirando. Uma universidade ofereceu viveiros de plantas a escolas da sua região, e somente uma dessas escolas manteve o seu viveiro… vivo. Nas restantes, as plantas secaram. Parece que as tarefas que exigem algum sacrifício são de responsabilidade dos outros. Se apontamos algo errado a um aluno, é provável que a resposta seja: Não fui eu!

A modernidade projetou-nos numa ética individualista, na qual se pretende conservar a benesse da liberdade, ignorando a prática da responsabilidade, algo que lhe é inerente. A educação formal fragilizou o conceito de ética e as transgressões são justificadas como regras do jogo para a sobrevivência. Urge, por isso, que estâncias educacionais, como as escolas, concretizem uma educação integrada na polis, o exercício da corresponsabilização na formação, uma formação estruturante da vida pessoal e comunitária. Como Diria Augusto Boal, “cidadão não é aquele que vive em sociedade – é aquele que a transforma”. E outro mestre de nome Carlinhos diz-nos que cada pessoa que passa pela nossa vida não nos deixa só, deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. A nossa vocação é cooperar, ser corresponsável. Ninguém existe sozinho, não há entidades vivas isoladas em si.

Se uma escola, no seu projeto político-pedagógico, assume, perante as famílias dos seus alunos, que deles farão seres responsáveis, deverá assegurar coerência entre o projeto escrito e a prática efetiva do projeto. Isto é, terá de encontrar modos de agir com responsabilidade. Muitas escolas o conseguem. Mas… e as outras? Visitei uma “Escola de Aperfeiçoamento de Profissionais da Educação” (era assim que rezava a placa ostentada no pórtico de entrada). Havia muito lixo espalhado pelo chão dos corredores e nas salas de aula. Quando uma professora me perguntou por que razão as escolas não mudam, lacônico, eu respondi:

Olha à tua volta. E olha para o chão!

Solidariedade

Sejamos irmãos porque estamos perdidos num pequeno planeta dos arredores de um sol suburbano de uma galáxia periférica de um mundo privado de centro.

Edgar Morin

Reflitamos sobre uma dura realidade: a quantidade de suicídios verificados neste nosso conturbado mundo equivale ao dobro do conjunto de mortos por guerra e fome. Quem se interroga sobre as causas de ambas as tragédias? Quem reflete sobre a ausência de uma ética apoiada na bondade e no apoio mútuo?

Naquela idade em que começamos a sentir a necessidade de dar sentido à vida (ou de sair dela…), é preciso que aconteça um feliz encontro com seres que ensinam que a verdadeira vida é um fraterno encontro. E há tantos desencontros nesta vida… Em direto, a televisão transmitia um atropelamento, numa rua de São Paulo: um corpo no meio da rua e condutores desviando as suas viaturas daquele obstáculo, alguns quase esmagando a inerte vítima do acidente. Na calçada, transeuntes alheios ao drama. Até ao momento em que um deles faz sinal aos carros para que parem, vai até junto do corpo e pede para chamar uma ambulância. Interrogo-me: Este sofreware humano será o único, ou poderemos aspirar a algo diferente? Quero crer na possibilidade de uma sociedade mais fraterna. E escuto o mestre Morin que nos fala da necessidade de uma metamorfose, de uma reforma moral, lograda através de profundas mudanças no modo de educar e numa economia ecológica e solidária. Ele diz-nos que solidariedade é a palavra que pode modificar positivamente o futuro da humanidade. Curiosamente, Morin considera que o país com maiores possibilidades de liderar essa metamorfose solidária é o… Brasil.

Quando se substituirá um “ou” solitário pela coordenação do “ e”, para que não haja moradores dos jardins versus zona leste, mas apenas brasileiros unidos numa tarefa comum? Por que não imitamos os japoneses vítimas de um terrível tsunami? Ninguém furou fila para assistência médica. Compartilhou-se a falta de água, a fome, a tristeza, a morte. Não houve saques, mas solidariedade.

O presidente da assembleia da escola era um mocinho muito autocentrado. Nas reuniões, ele somente dava a palavra aos amigos e não assumia responsabilidade coletiva, em situações que justificavam essa atitude. Foi criticado por muitos dos alunos que o elegeram. Reagiu, dizendo que se demitiria. Então, as crianças tomaram uma decisão surpreendente: decidiram que o presidente deveria continuar no cargo. Mas que a condução das reuniões deveria ser participada pelos restantes membros da mesa da assembleia, de modo a ajudar o presidente a aprender a respeitar os outros e a respeitar-se.

Ao longo daquele ano letivo, o presidente, que não foi demitido, viveu múltiplas situações de ajuda mútua. No final da última assembleia daquele ano, deitou discurso, agradecendo aos colegas a oportunidade de ter aprendido a ser solidário. Em linguagem de gente jovem, disse, mais ou menos, isto: Que não se importava de não ser o primeiro, para que todos fossem os primeiros. Diz-nos o mestre Pestalozzi que a educação moral não deve ser trazida de fora para dentro da criança, mas deve ser uma consequência natural de uma vivência moral. A compreensão e a aceitação do outro resulta de uma aprendizagem da verdade, na arte de conviver. Desde tenra idade, a solidariedade na solidariedade se aprende.

Um menino sentou-se no colo de um idoso, que chorava a morte da sua esposa. O idoso susteve o choro e sorriu. Quando a mãe da criança lhe perguntou o que tinha dito ao velhinho, a criança respondeu: Nada. Só o ajudei a chorar.

Tolerância

Tolerância não significa aceitar o que se tolera

Mahatma Gandhi

O termo tem origem na palavra tolerare, que significa suportar pacientemente. Mas poder-se-á aceitar que a paciência suporte a indiferença? Poder-se-á tolerar que todas as atitudes sejam consideradas legítimas? Poderemos incorrer num relativismo “tolerante”, onde a verdade e a mentira se equivalem? Talvez se deva considerar uma tolerância mais próxima de algo que dá pelo nome de… aceitação. Vejamos.

Até onde devemos aceitar a diferença? Poderá uma cultura sobreviver, se tolerar subculturas que defendam uma cultura de oposição? Que diferença haverá, por exemplo, entre tolerar e aceitar que alguém seja homossexual, ateu, ou adepto de um time, que compete com o nosso time…? Que diferença haverá entre tolerar a passividade de um educador perante atos inaceitáveis e aceitar que se deva colocar limites a uma ditadura da infância, ao colapso ético face a exigências e reivindicações dos infantes? A tolerância confundida com a permissividade não permitirá que os tolerados imponham as suas regras (ou caprichos), negando a assimetria entre direitos e deveres?

Será oportuno saber como alguns autores se posicionam perante essa tensão entre tolerar e aceitar. Burke avisa-nos de que existe um limite em que a tolerância deixa de ser virtude. Balmes diz-nos que não é tolerante quem tolera a intolerância. Popper sintetiza a tensão numa frase: Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes, se não corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância. E dois dos maiores mestres portugueses do século XX, assim se pronunciam: Porquê tolerar? Parece-me ainda pior do que perseguir. No perseguir há um reconhecimento do valor (Agostinho da Silva). Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro (José Saramago). Que me seja perdoada a presunção, mas atrever-me-ei a fazer eco das palavras do saudoso escritor, para contextualizar a tensão entre tolerância e aceitação no contexto escolar.

É comum escutar a expressão educação democrática. Correndo risco de suscitar alguma polêmica, arrisco perguntar: As decisões tomadas pelo corpo de educadores de uma escola deverão ser tomadas por maioria (democrática), ou por consenso? A minoria a quem foi Imposta uma decisão democrática respeitará (aceitará) tal decisão, cumprirá aquilo que foi decidido? Dito de outro modo: as decisões deverão ser pautadas na tolerância, ou na aceitação?

Os brasileiros parecem tender à tolerância. Talvez por ser mais cômodo ir ao aeroporto, xingar o time que perdeu uma partida de futebol, do que manifestar na rua, na praça, em todo o lugar, a não-aceitação do enriquecimento ilícito, da corrupção, de crimes contra o erário público. É mais fácil do que intervir quando um energúmeno joga uma lata vazia pela janela do carro, ou quando uma justiça obtusa permite que o político corrupto beneficie de impunidade. O péssimo exemplo de significativa parte da classe política influencia o caráter do povo, polui as mentes com valores egoístas. O povo brasileiro sofre de uma bovina tolerância face aos atos imorais dos indigentes morais, que conspurcam a nobre arte de fazer política.

Li (já não sei onde) que a ética assemelha-se a uma reta: a menor distância entre os pontos A e B, onde A é o Ideal e B, a Ação. Deveremos tolerar a incoerência entre o pensar e o fazer, ou aceitar a necessidade de fincar barreiras perante procedimentos moralmente contraditórios?

Uma atitude é uma atitude…

O correr da vida embrulha tudo. Vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, Sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.
(Guimarães Rosa)

São os valores que definem o rumo de um projeto pedagógico e traduzem-se em atitudes. Se tal não suceder, um projeto não ultrapassará o nível das intenções.

O André estava prestes a reprovar, porque já quase havia ultrapassado o limite permitido de “faltas disciplinares”. O pai do André foi saber o que se passava. Foi-lhe explicado que o filho saía da sala de aula sem autorização da professora. Chegado a casa, o pai do André perguntou-lhe se tinha consciência do risco que estava a correr. O jovem respondeu afirmativamente. Ainda mais preocupado, o pai voltou à escola, tentando entender a obstinação do filho. Um professor amigo acolheu-o e explicou o que vinha acontecendo, desde que uma professora nova tomara a responsabilidade de dar aulas à turma do André. A professora era uma senhora insegura. No início da aula, gritava, ameaçava de mandar sair da sala, com falta disciplinar, todo o aluno que perturbasse a aula. Havia na turma um aluno, que parecia estar sempre de bem com a vida, dado que um sorriso permanentemente lhe enfeitava o rosto. A professora, supondo que o sorriso correspondia a desafio, pusera esse aluno fora da sala várias vezes. Tantas vezes quantas o André havia saído e, consequentemente, sido punido com “falta disciplinar”.

Na primeira vez, o André tentara explicar que o sorriso do colega era natural, uma caraterística. Não conseguira fazê-lo. A professora o mandou calar. O André saiu tantas vezes quantas o colega havia sido expulso, porque não concordava com a atitude injusta da professora e manifestava-o desse modo: num protesto mudo. Porque a solidariedade era um dos valores do quadro axiológico do projeto da escola que o André frequentara, antes de ingressar naquela, em que… quase reprovara por excesso de “faltas disciplinares”.

Uma atitude é uma atitude. E uma vida feita da constante demissão de atitudes é uma vida… sem atitude. Para salvar a pele, se perde o sentido da vida; para poupar incômodos, perdemo-nos a nós mesmos.

Em 1934, a primeira Constituição, que atribuiu ao Estado a responsabilidade pela educação do povo, inspirava-se em valores e princípios na época prevalecentes. Decorrente de tais valores e princípios, o Brasil da educação formal cuidou de formar elites e descuidou a educação do povo. Hoje, desdenha-se a ética (muitos membros da elite cometem crimes de colarinho branco…), num jogo de salve-se quem puder, porque a educação escolar fragilizou a responsabilidade social.

Poderá haver educação em práticas sociais que impedem a assunção de uma vida plena, quando não fazemos aquilo que se pode e sonha poder fazer? Num tempo em que a Escola da Ponte começava a deixar de ser uma “escola dos pobres e deficientes”, passando a ser uma escola de todos, um pai, juiz de profissão, confidenciou-me: A minha filha aprenderá nesta escola aquilo que outras escolas lhe poderiam ensinar. Mas pode aprender aqui coisas que outras escolas não lhe ensinariam…

Na sua primeira visita à Escola da Ponte, Rubem Alves deteve-se a observar uma menina, que consultava um dicionário. Perguntou por que o fazia. A menina respondeu: Estou a fazer uma lista de palavras “difíceis” deste texto e a escrevê-las de uma maneira mais simples.

O Rubem insistiu:

Foi um professor que te mandou fazer essa tarefa?

Não! – disse a menina – Eu sei o sentido destas palavras. Mas os meus colegas mais pequenos ainda não sabem consultar o dicionário e eu decidi ajudá-los, para que eles compreendam o texto, que é bem bonito.

Verdade

A verdade padece, mas não perece

Santa Teresa d’Ávila

Conta-se que um filósofo conversava com o diabo, quando passou um sábio com um saco cheio de verdades, do qual uma caiu. Alguém a apanhou e saiu correndo, gritando: Encontrei a verdade! Perante esse quadro, o filósofo disse para o diabo: Aquele homem encontrou a verdade e, agora, todos vão saber que você é uma ilusão da mente. Mas o diabo respondeu: Está enganado. Ele encontrou um pedaço da verdade. Com ela, vai fundar mais uma religião. E eu vou ficar mais forte!

Quem sofrer de alguma forma de angústia existencial encontrará respostas em Kalil Gibran, ou em Saint Éuxupèry. Aqueles que estiverem em situação de dúvida religiosa poderão recorrer à Bíblia, ao Corão, ou a outro qualquer livro sagrado. Essa experiência pode constituir-se numa bela harmonia. Certamente, haverá muitas verdades para a verdade em que acreditamos. Se eu vejo de um modo e o outro vê de outro modo, que se tente ver os dois modos, ver juntos, como Gandhi fazia: A minha preocupação não está em ser coerente com as minhas afirmações anteriores sobre determinado problema, mas em ser coerente com a verdade. Não esqueçamos que foi a imposição de uma “verdade” única que levou Espinosa ao exílio e Galileu à retratação.

O José Prat ironiza: Sempre que alguém afirma que dois e dois são quatro e um ignorante lhe responde que dois e dois são seis, surge um terceiro que, em prol da moderação e do diálogo, acaba por concluir que dois e dois são cinco…
Apesar das distorções da informação cometidas pela mídia, a verdade continua sendo verdade. Quando a mentira, tal como a Medusa, contempla o escudo de Teseu, sossobra, porque reconhece a sua verdadeira face.

Um e-mail recebido de uma professora esta escrito: Eu estava numa palestra sua e lhe fiz uma pergunta. Me apresentei como pedagoga e disse que tinha duas dúvidas. O senhor me respondeu algo assim: Como pode ser pedagoga e ter apenas duas dúvidas? Acredito que todo o ser humano é uma dúvida, uma metamorfose ambulante. A dúvida e a humildade são companheiras diletas da verdade, uma mistura sublime. Aceitemos, serenamente, os mistérios por desvendar, sem necessidade de explicações para o inexplicável.

Venho repetindo que o princípio da veracidade deverá nortear todos os projetos educativos. Mas, na boca das crianças, a verdade chega a ser crueldade…

A tia desculpe! – disse a aluna.

Porquê, minha filha? – quis saber a professora.

É que chamei a senhora de idiota – esclareceu a criança.

Eu não escutei nada – disse a professora, sorrindo.

Foi só em pensamento… – esclareceu a criança.

Ainda que sem que disso tome consciência, a criança age filosoficamente, buscando verdades, verdades, como que reconstitui a história da filosofia dos adultos: Thales afirmava ser a água o elemento fundamental da matéria. Anaxímenes acreditou que fosse o ar. Para Xenófanes o elemento fundamental era a terra. Heráclito afirmou que era o fogo. E chegou Empédocles, para explicar que o mundo é combinação da água, ar, terra e fogo. As crianças e os loucos falam verdades que a sua época permite vislumbrar. Talvez por isso, os loucos sejam internados em hospícios e as crianças em escolas. Permiti, pois, que vos narre mais um episódio, confirmação da infantil prática da verdade.

Uma professora tentava convencer os alunos a comprar uma cópia da foto do grupo:

Imaginai que bonito será, quando vocês forem grandes e todos digam «ali está a Catarina, é advogada, este é o Miguel e, agora, é médico».

Uma vozinha, vinda do fundo da sala, fez-se ouvir: E ali está a professora… Que já morreu.

X da questão

Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes.

Fernando Pessoa

As conclusões de um estudo de caso talvez sintetizem a intenção deste dicionário. Comecemos por atribuir um nome fictício à escola: “Escola X”, por nela estar contido o… X da questão. É uma instituição da rede particular de ensino de uma cidade capital de estado. Acolhe alunos provenientes de famílias de classe média-alta. A Escola X dispõe de um belo projeto, no qual pontificam os valores inscritos na Lei de Diretrizes e Bases: autonomia, respeito, democraticidade… O projeto (escrito) contém abundantes citações de autores na moda, num discurso feito de pedagogia pseudo-humanista e de caricaturas de construtivismo. A prática é a negação daquilo que está escrito.

Acompanhados de pais que, conscientemente, aderiram ao projeto, alguns professores da Escola X tomaram a iniciativa de rever práticas e dar-lhes coerência. Crentes de que a autonomia é construída através da cooperação, perguntavam: como é possível desenvolver autonomia numa aula, quando se considera o educador como objeto, mero executante de determinações?

Foram instalando dispositivos, refletindo efeitos, trabalhando gratuitamente, fora do horário de aula, em equipe. Excelentes resultados não demoraram a surgir. Logo também apareceram torpes reações: colegas “professores” (não sei se poderei dar-lhes tão digno estatuto) sabotaram o trabalho dessa equipe, E todo o esforço se perdeu entre os caprichos do dono da Escola X e a conivência de serviçais “professores”, que, para não perderem o emprego, perderam a dignidade. “Professores”, cuja desonestidade intelectual foi recompensada com tablets oferecidas por um chefe que crê que o dinheiro pode comprar consciências.

Esse diretor, ignorante do que seja pedagogia, tomou decisões carentes de fundamentação pedagógica, científica, ou de mero bom senso, e que feriam os valores consagrados no projeto da instituição. Decisões com obediência bovina comunicadas (ou, melhor dizendo, impostas) por uma coordenadora aos educadores. Herdeiro de uma cultura autoritária, o dono da Escola X impôs os seus caprichos, beneficiando da representação conservadora que muitas famílias-clientes têm do que seja uma escola e um projeto. Verifiquei, aliás, que esses pais conservadores ignoravam o conteúdo do projeto, nunca o leram!

Aquela escola transformou-se numa fraude. Conceitos como democraticidade, diálogo e responsabilidade ética, continuam a enfeitar o projeto (escrito), enquanto os padrões de comportamento quotidiano refletem uma herança civilizatória calcada na dominação, no autoritarismo. Os educadores, que ousaram não concordar com absurdas decisões, não puderam fazer ouvir a sua voz. Foram intimidados, ostracizados e até mesmo despedidos. O trabalho sério de reflexão sobre as práticas, um acervo de rica documentação arquivada num computador, desapareceu misteriosamente. Ninguém soube indicar o seu paradeiro… E a Escola X continuou cativa de uma concessão de produção em série, do papaguear conteúdo, da parcelarização do conhecimento.

Alguns pais, os mais conscientes da situação, reagiram, exigiram o cumprimento do projeto. Porque não foram escutados, levaram os seus filhos para outras escolas. Denunciei as contradições, mas isso para nada serviu. Afastei-me da Escola X.

Mais uma iniciativa de professores sérios foi frustrada. Mas não se pense que os pais e professores desistiram – foram recomeçar em outro lugar.

A situação descrita não é inédita, é bem comum, aliás, e permite-nos perceber uma das razões pelas quais o Brasil continua imerso numa profunda crise moral.

Zero em comportamento, ou nota dez?

A educação moral não deve ser trazida de fora para dentro da criança,

mas deve ser uma conseqüência natural de uma vivência moral.

Pestalozzi

Completando o nosso dicionário, ofereço-vos um esperançoso contraponto da da Escola X, a Escola Z, que acolhe alunos oriundos de bairros sociais e favelas, jovens castigados pela fome e por outras violências, crianças expulsas de outras escolas. A violência vivida pelos alunos que esta escola acolhe é caraterística de uma sociedade excludente, que, infelizmente, muitas escolas ainda ajudam a reproduzir.

O projeto (escrito) da Escola Z consagra valores, cuja prática opera o resgate daquilo que torna os seres humanos mais humanos. A práxis da Escola Z permite aos seus alunos partirem do zero em comportamento para a nota dez em humanidades.
Diz-nos o dicionário que valor é preceito ou princípio moral passível de orientar a ação humana. Mas, se a Escola foi criada para reorientar a ação humana, para ser um berço de igualdade social, um modelo de escola obsoleto e hegemônico, transformou-a num obstáculo ao desenvolvimento humano. Hoje, são visíveis sinais de que a velha escola está prestes a parir uma nova escola. E de que, neste processo, os educadores mais sensíveis sentem com mais intensidade as dores do parto.

A Escola Z é nota dez na vivência de valores. A vivência dos valores enforma o caráter, projeta-se nas atitudes. Os educadores que nela operam felizes transformações desenvolvem uma “ética universal do ser humano”, como diria o saudoso Paulo. A coerência que nela se opera entre teoria e prática, reorienta a ação humana e vai dando bons frutos. O Robson, atento e crítico nas intervenções que faz durante as reuniões de pais, proibiu a filha de ver a novela. E o filho da Cleide já não assiste às aberrações do Big Brother. O pai do Maique vendeu a bicicleta de ir para o trabalho e ajudou a escola na compra de um violino para o seu filho. Aos treze anos, quando chegou à Escola Z, o Maique não conseguia sequer pegar num lápis. Os trabalhos da roça tornaram os seus dedos hirtos, as mãos calejadas difíceis de fechar. Hoje, já vai ensaiando acordes de bachianas partituras, enquanto aprende noções de Matemática e recebe lições de sensibilidade. O impulso criativo, da orquestra e do coral de jovens ganham raízes no propiciar às crianças a oportunidade do deslumbramento dos sentidos.

Sabemos que a transmissão de valores se dá pela convivência, pelo exemplo, pelo contágio emocional. Assim aconteceu com o Maicon, filho de pai, que não chegou a conhecer. Que viu a mãe ser assassinada por um traficante. Que assistiu a estupro e outras violências. Por ter sido violado, não controla o esfíncter anal. Naquela manhã, chegou cheirando a fezes, urina e suor. E não tardou a reincidir no xingamento e na agressão aos colegas.

O professor aproximou-se e abraçou-o… com firmeza. O Maicon tentou libertar-se do amplexo, estrebuchou, gritou. Quando se acalmou, o professor ficou a fitá-lo, em silêncio. Quando o Maicon tirou os olhos do chão, falou:

Tio, posso fazer uma pergunta?

Podes – respondeu o professor.

Posso dar-lhe um abraço? – Aquele corpo franzino colou-se ao peito do professor. E o inusitado questionamento repetiu-se:

Tio, posso fazer só mais uma pergunta? Posso?

Antes que o professor, visivelmente emocionado, pudesse responder, o Maicon acrescentou:

Por que foi que o tio chorou, quando eu o abracei?

Bastou um momento de carinho e firmeza, para que a reciclagem dos afetos acontecesse. Tem razão o Juarez, quando diz que não há tarefa impossível, quando ao desejo do coração se soma a verdade da intenção.

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