Muito se fala sobre como os professores têm tratado seus alunos. Gritos, notas baixas, repreensões e afins. Não creio que um professor chegue a este ponto sem antes tentar outras alternativas. Esse cenário é reflexo de um mero esgotamento diante de um cotidiano onde crianças e adultos medem forças em sala de aula. Então o que fazer?

Muito antes de carregar em si conhecimentos específicos e técnicos sobre a educação, um educador deve ter a capacidade de se colocar no lugar do aluno. Pois bagagem

WhatsApp Image 2018 08 24 at 10.31.34 1 - ENTRE SABERES E SABORES – UM DILEMA DA EDUCAÇÃO

técnica é um tipo de conhecimento que fica fora do corpo, sendo apenas informativa, e bagagem humana, aquela adquirida com a própria vivência, é conhecimento que fica dentro do corpo. Aquilo que carregamos do lado de dentro é mais fácil e natural de ser aplicado pelos professores e recebido pelos alunos.

 

É intrínseco ao ser humano a busca pela empatia, não importando se temos consciência disso ou não. Um professor frio, que se compromete mais com os conteúdos que tem que transmitir do que com os alunos que estão na sua frente raramente será guardado na memória daqueles que um dia aprenderam (ou não) com ele.

Todos já fomos crianças e adolescentes. Há algo mais profundo e eficaz do que se colocar na própria pele? Basta voltar um pouco no tempo. Nós sabemos exatamente o que é palatável ou não. Que a vaidade seja posta de lado, deveWhatsApp Image 2018 08 24 at 10.30.37 - ENTRE SABERES E SABORES – UM DILEMA DA EDUCAÇÃOmos admitir o quão chato são certos conteúdos, o quanto já nos esforçamos para não viajar na imaginação na tentativa de acelerar o tempo dentro de sala de aula ou mesmo de combater o sono. Então porque simplesmente reproduzir o modelo e continuar transmitindo saberes igualmente indigestos e ainda por cima achar ruim se os atuais alunos repetem o comportamento que todos tivemos tempos atrás? Que a verdade seja dita de forma nua e crua: professores, isto é hipocrisia!

“A escola é burra e incompetente porque ela não fala sobre aquilo que é vitalmente importante para as crianças. Isso foi dito por Piaget em Biologia e conhecimento. Mas nem teria sido necessário que ele dissesse. O senso comum, sem precisar de pesquisas, sabe disso muito bem” (in: O melhor de Rubem Alves – Ed. Bossa Cultura)

Aqueles saberes que estão ligados com a vida são palatáveis. A vontade de aprender existe naturalmente, Porém os saberes eleitos como o que as crianças e adolescentes tem que aprender para passar nas provas não tem relação com nossa vida. Não há sentido algum em ter que aprender e por isso inicia-se o duelo de forças entre alunos e professores em sala de aula.

Dada a honestidade de cada ser para consigo mesmo, fica a pergunta: se não há razões para aprender os saberes que não agregam valor à nossa vida, por que ensiná-los? E, a partir de então, só há uma forma de transmitir conhecimento?

Como diz Rubem Alves, o senso comum sabe muito bem a resposta. E o ponto de partida para cessar as lutas de força entre alunos e professores em sala de aula é precisamente parar de tampar o sol com a peneira. Admitir que já fomos crianças e adolescentes e que nós mesmos, com nosso corpo, sabemos possíveis respostas para os dilemas enfrentados entre grandes e pequenos nas escolas. Sonho com um dia em que a coragem de nos comprometer de fato com os humanos seja mais forte que o compromisso com os saberes curriculares. Professores e alunos serão mais felizes quando os saberes se fundirem com os sabores, unindo o conhecimento ensinado e aprendido com a vida.

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